História da Capoeira

Capoeira 03A origem da capoeira é incerta. A tradição oral apresenta diversas versões, desde uma suposta ligação direta com determinados rituais africanos, como a “dança da zebra” e o “N’golo”, até uma versão romântica, em que o africano teria desenvolvido a capoeira como luta nas senzalas e a disfarçado em dança para evitar a vigilância dos senhores. As modernas pesquisas levam a desmistificar versões simplistas (Assunção, 2005). É provável que a capoeira tenha se originado num processo de vários séculos, como uma síntese espontânea das diversas formas de cultura corporal trazidas até aqui por diversos povos africanos, influenciada também, em menor escala, pelas culturas indígena e europeia.

Durante o Império e a República Velha, a capoeira sofreu dura repressão. Foi criminalizada no Código Penal de 1890 e somente liberada em 1934. Durante 44 anos, praticar capoeira foi crime. Como bem explica Filgueira (2003): “Devido à sua origem subalterna, a capoeira foi tratada como prática marginal até ser incorporada pelo Estado Novo como um símbolo de identidade nacional. Vargas, em 1954, apresenta a capoeira como ‘o único esporte verdadeiramente nacional’” (on line).

Sabemos que um dos intuitos do Estado Novo era formar uma “nação brasileira”, hermeneuticamente construída, isto é, baseada em símbolos de fácil identificação por parte da sociedade.

Com o passar do tempo, a cultura negra da capoeira se incorporou à sociedade e passou a influenciar a dança, as artes marciais, o esporte, a música e a literatura. Em contrapartida, sofreu influências e absorveu modificações que a descaracterizaram, transmutando-a em bem de consumo, regrada e institucionalizada. Não era mais o malandro a “vadiar” sua brincadeira na rua, entre a cachaça e a prostituta, e sim o atleta numa academia treinando seu esporte.

Não cabe neste estudo se estender a respeito da história, das tradições, dos estilos ou da institucionalização da capoeira, pois muito já foi escrito sobre esses temas. Cabe, porém, ressaltar que nunca o capoeirista foi passivo diante dessas mudanças. Pelo contrário; independente de sua predileção pessoal, sempre se aproveitou para delas obter os maiores benefícios, sejam eles em termos de capital simbólico ou econômico.

Atualmente a capoeira divide-se em várias correntes. Muitas vezes os membros de umCapoeira 04a tendência clamam para si o mérito de “tradicional”, “contemporânea”, “pura”, “inovadora” etc., mas todas partilham a ideia de uma arte baseada na cultura africana e ferramenta de luta contra a opressão, a marginalização e o racismo. Para o educador cultural de capoeira, é vital o entendimento de que sua função social não se restringe ao campo do movimento, é sua obrigação perpetuar o legado da capoeira na luta contra a discriminação.

O primeiro passo, portanto, é a aceitação da alteridade no próprio meio da capoeira, ou seja, enxergar todos os estilos e tendências como facetas complementares, não-excludentes. Como um caleidoscópio em que diversas cores e formas compõem o quadro final, transformando-se ao sabor do movimento.

O segundo passo é promover ações, atitudes e reflexões intencionais que valorizem a cultura negra, sem, no entanto, cair na armadilha de discriminar as contribuições das demais culturas.

 

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