Zé Ricardo fala sobre desigualdade e preconceito racial

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UMA HISTÓRIA DE LUTA CONTRA A DISCRIMINAÇÃO

Capa Mais SantosO racismo e a falta de oportunidade pelo fato de ser negro fizeram com que José Ricardo dos Santos fundasse a ONG Afrosan, que funciona na Rua Visconde de Cairo, 217, no ‘Campo Grande, em Santos.

Visando a mudança na educação e o bem de jo­vens e adultos desfavorecidos, ele criou três focos de atuação em seu projeto, para que, com multa luta, as oportunidades se igualassem.

José Ricardo representou a Baixada Santista na Terceira Conferência sobre Racismo e Xenofobia promovida pela ONU, (Organização das Nações Unidas) em 2002, na África. Com a bagagem ne­cessária para ajudar na transformação da realidade de negros e pessoas desfavorecida socialmente, o caiçara está preparado para bater de frente e correr atrás do que for preciso para manter de pé a ONG que já ajudou mais de três mil estudantes de toda a região.

Qual sua trajetória profissional? Minha traje­tória profissional encerrou, praticamente, antes do ano 2000, quando saiu minha aposentadoria. Tra­balhei por mais de vinte anos na antiga Cosipa, em Cubatão, na área administrativa nos vários setores de transporte da empresa.

Como e quando surgiu a ideia de criar a Afrosan?

Situações de racismo enfrentado na própria empresa, a fal­ta de oportunidades pelo fato de ser negro, e por acreditar que nada acontece por acaso, fizeram com que um grupo de conselheiros do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Santos, em 1994, me convidasse para integrar a esse projeto. Foram dez anos à frente desse Conselho, como presidente.

Em 1995, pelo trabalho desenvolvido na presidência do Conselho, fui convidado pelo ex-prefeito Papa para ocupar o cargo de Coordenador de Promoção da Igual­dade Racial e Étnica, que ocupei por quase quatro anos.

A ideia da criação da Afrosan veio em 2002, quan­do do meu retomo de viagem á África do Sul (Durban). Representei a região na Terceira Conferencia sobre Racismo e Xenofobia promovido pela ONU (Organização das Nações Unidas), em que se discutiu propostas políticas de ações afirmativas, como forma de minimizar o enorme abismo que a escravidão e o racismo provocaram em vários países, principalmente o Brasil.

Diante disto, senti a responsabilidade de criar, jun­tamente com um grupo de parceiros, uma entidade que atacasse de frente essas questões, mas com ênfase na educação. Assim criamos o nosso primeiro e mais co­nhecido projeto, que é o Cursinho Pré Vestibular para afrodescendentes e carentes da Baixada Santista.

O que a ONG representa em sua vida? A Afrosan representa na minha vida, além de um sonho, a possibilidade de oferecer aos que mais necessitam a possibilidade de uma complementação e formação educacional de qualidade, visando prepará-los para o ensino supe­rior, mercado de trabalho e formação cidadã para o enfrentamento do racismo, preconceitos e outras formas de intolerância que afastam aqueles que, assim como eu, não tiveram oportunidades, seja pela sua condição social ou étnica.

Qual a principal missão da instituição? A principal missão da Afrosan é o combate ao racismo e todas as formas de preconceito, utilizando a educação como a melhor forma de posicionamento crítico e conscientização do seu papel de cidadão na sociedade.

Quais os projetos trabalha­dos atualmente? A quais públi­cos cada um deles é voltado? A Afrosan tem três projetos atualmente: o cursinho pré-vestibular, que desde sua criação já atendeu mais de três mil estudantes de toda Região Metropolitana da Baixada Santista. Ele é destinado a estu­dantes que estão cursando o último ano do ensino médio ou que já tenham concluído, e visa preparação para o vestibular, com foco para o Enem e acesso as universidades públicas.

Temos também o Baobá, destina­do a jovens que estejam cursando o primeiro ou segundo ano do en­sino médio, que tem como metas uma formação cidadã e preparató­ria para o pré-vestibular, além do projeto Caminhos para o Trabalho, que visa oferecer ferramentas adicionais a quem está desempregado.

Como é a relação com os voluntários? O ponto alto do nosso trabalho é a participação dos nossos vo­luntários. Hoje são trinta profissionais, sendo 24 pro­fessores e até doutores. Todos dedicam um pouco do seu tempo para ajudar a quem realmente precisa. Essa credibilidade advém do trabalho sério e premiado que a Afrosan vem desenvolvendo nesses 16 anos.Imagens

Como a instituição se sustenta financeiramente? Nossa entidade não recebe nenhum subsídio de nenhum organismo municipal, estadual ou federal. Recebemos uma pequena colaboração de uma pessoa que nos ajuda com as despesas, que não são poucas. Dos cem alunos que temos atualmente, somente 50 têm condições e contribuem com cinquenta reais por mês, os demais não contribuem com nada. Acima de tudo, os projetos da Afrosan são ações sociais destinadas a quem é socialmente e financeiramente desfavorecido.

Qual o principal desafio de seu trabalho junto à ONG? O principal desafio, acima de tudo, é manter nossos projetos e ampliá-los, já que a demanda é gran­de e manter tudo isso com quase zero de recursos tem sido extremamente difícil.

O que pensa sobre questões como discriminação racial e precariedade na educação? A questão racial e do racismo têm sido uma mis­são de vida, da minha vida, já que como ativista há mais de vinte e cinco anos aqui na Baixada tenho observado e constatado que temos muito que avançar. Vivemos num país que pratica o racismo de for­ma camuflada, não reconhece o que foram os quase quatro séculos de escravidão e seus efeitos ne­fastos até os dias de hoje. Portan­to, meu trabalho na Afrosan tem como meta principal o combate a toda forma de racismo e precon­ceito. A educação em nosso país, ou seja, a deseducação e a falta de comprometimento dos nossos governantes têm contribuído para o aumento das desigualdades e, consequentemente, do racismo.

Como a população pode ajudar a manter a ONG? Seria muito bem-vinda qualquer contri­buição financeira ou material para nossa entidade. Pedimos também que empresas, pequenos empresá­rios, entre outros, que queiram investir em nossos pro­jetos através de bolsas de participação solidária, entrem em contato (www.afrosan.org.br). Fariam toda a dife­rença na manutenção dos nossos trabalhos.

No site da instituição existe uma área para fazer denúncias de racismo. A quais órgãos elas são encami­nhadas? Como a Afrosan orienta as vitimas? A Afro­san trabalha somente na orientação, assistência e apoio as vítimas de racismo, não dispomos de nenhum corpo jurídico. Alguns casos de maior relevância têm recebido apoio de alguns advogados como forma de colaboração, mas ainda estamos trabalhando para futuramente oferecer um apoio mais ampliado ao que é dado hoje.